Razão e Emoção, do amor ao ódio - Capítulo IV


CAPÍTULO IV
Eterna presença

NA MANHÃ SEGUINTE, a mãe de Bianca observa a filha dormindo tranquilamente, olha os objetos quebrados no chão do quarto, aproxima-se da cama da filha, pega a coberta e cobre o corpo sonolento de sua pequenina. Não importa a idade, para ela, Bianca sempre será a sua pequenina indefesa, necessitando de sua proteção. Deixa o seu corpo ereto, olha novamente os cacos pelo chão do quarto, enxuga as lágrimas e sai lentamente do quarto, deixando a porta entreaberta.
            Segundos depois, um homem se aproxima da porta do quarto, adentra e fica imóvel olhando para Bianca. Todo de roupa preta, chega a se camuflar a leve escuridão do quarto. A moça percebe a presença de Gley, sem abrir os olhos diz:
            - Não se preocupe. Estou bem. O momento de fúria já se foi. Agora me deixe dormir em paz. Preciso dormir. Preciso dormir.
            O rapaz não fala nada. Dá meia volta e se retira do quarto.

YASMIM RECEBE EM SEU quarto o primo Ronny. Ele tem sentimento por ela que vai além da relação entre primos. O jovem é apaixonado ou, simplesmente, sente atraído, pode-se até dizer: obcecado por ela, desde sempre.
            Antes de Yasmim viajar a Paris, ele investiu algumas vezes, mas não teve sucesso com a conquista à priminha. A moça sempre deixou claro a ele, que para ela, Ronny Flammy não é nada mais do que primo.
            - Você está trabalhando na empresa dos tios? – Senta-se em uma poltrona e toca na tela do celular.
            - Estou. Preciso ocupar a minha cabeça com alguma coisa útil. – Deita-se na cama, olhando para o teto.
            - Ocupar a cabeça? – Levanta-se e caminha até a cama da prima. – Podemos fazer algo de útil agora. – Joga-se sobre a cama e encosta o seu corpo no corpo de Yasmim.
            - Acho que não. – Afasta-se. – Não é dessa ocupação que falei. – Levanta-se e senta-se na poltrona.
            - É uma pena. Sinceramente? Você não sabe o que está perdendo. – Abraça-se com o travesseiro e o cheira.

BIANCA PEGA O ÔNIBUS para ir a empresa. Ela se senta na cadeira próxima a janela, abre-a e fica olhando para a paisagem de concreto passar sobre a sua vista. O momento de intimidade pessoal é quebrado com o toque do seu telefone. Põe a mão esquerda dentro da bolsa e retira o aparelho. Olha por alguns segundos o nome da pessoa que está lingando para ela. Fica com dúvidas se o atende ou não.
            - Alô!
            - Oi! Você pode falar comigo?
            - Sim! Pode falar.
            - Acho que precisamos nos encontrar para esclarecemos tudo entre a gente.
            - Eu não sei se estou com cabeça para falar contigo.
            - Bianca, você falou, gritou, fez o maior bicho de sete cabeças sobre o acontecido, não me deixou explicar. Tá me ouvindo? – Ela confirma com um “Hum”. – O que você tem que saber é que nada aconteceu. O que você concluiu, não é o que você realmente concluiu. Entende? – Novamente confirma com um “Hum”. – Só fiquei sabendo que ela é filha do Augusto Queiroz e do Antony Flammy, quando a vi lá na empresa.
            - Esse assunto não é para termos por telefone.
            - Sei que não. Por isso que quero encontrar com você para conversarmos.
            - Pode ser hoje à noite, lá em casa.
            - Fica combinado, então, à noite, em tua casa.
            Eles se despendem e Bianca volta a guardar o telefone na bolsa. Em seguida, passa a apreciar a paisagem de concreto novamente. Agora com algumas lágrimas nos olhos.

YASMIM VAI ATÉ A SALA DO PRESIDENTE da Flammy Indústria. A jovem apresenta ao pai o resultado do seu trabalho durante as semanas como consultora financeira da empresa. Após alguns minutos de análise dos documentos, Antony liga para a secretária e pede para ela entrar em contato com Marcelo e Vitório.
            Bianca entra em contato com os dois funcionários dos Recursos Humanos da empresa. Marcelo e Vitório são irmãos. Este é o gerente do RH e o outro, assistente. Ambos tentam saber o motivo de estarem sendo convocados a comparecer à sala da presidência, algo atípico na organização. Mas, Bianca não sabe lhe informar nada.
            Alguns minutos depois, os dois chegam a recepção. Falam com Bianca e esta os encaminha à sala da presidência. Quando entram, dão de cara com Yasmim e Antony. O presidente pede para os dois entrarem e sentarem nas poltronas que estão defrontes a mesa do presidente.
            Os colaboradores caminham apreensivos. Sentem que há algo de errado no enredo.
             Quando os dois estão bem acomodados nas poltronas. Antony entregar a cada um, cópias dos documentos que acabara de receber de Yasmim. Os funcionários leem os papéis com cuidado e surpresa. O nervosismo é aparente na face de cada um.
            - O que vocês têm a dizer sobre isso? – Indaga Antony.
            - Eu não sei como explicar isto. – Fala com a voz trêmula, Vitório.
            - E você, Marcelo? – Pergunta Antony olhando fixamente nos olhos de Marcelo.
            - Eu sei que isto não pode ser algo sério, verdadeiro. Só pode ser uma brincadeira de mau gosto.
            - Você está afirmando que o meu trabalho está errado, Marcelo? – Indaga-o Yasmim.
            - Talvez a senhora tenha se enganado em algum cálculo, ou coisa parecida. – Coloca os papéis sobre a mesa de Antony.
            - Como é que é? – Pergunta com a voz alterada.
            - Calma, Yasmim. Vamos entender a posição dele. – Pondera Antony.
            - Pai, não está vendo que eles estão querendo tirar o corpo de lado, jogando dúvidas sobre o meu trabalho.
            - Não é isso, senhora. – Diz Vitório. – Mas acho que alguma coisa está errada. Nós não somos desonestos. Sempre trabalhei corretamente.
            - Vocês estão fraudando os contratos dos funcionários. Os colaboradores desta empresa são contratos por x valor/salário, mas vocês criam um novo contrato com um salário bem superior. Há também dois contracheques para cada funcionário, um real que é entregue a cada um e outro falso que fica na empresa. Vocês achavam que não iam ser descobertos.
            - Isso é impossível, senhor. Não dá para fazer uma coisa dessa.
            - Vitório, por incrível que pareça, está dando para fazer sim. Este contracheque aqui na minha mão é da funcionária Fátima, este outro de Bianca. São os verdadeiros, com o valor real que elas recebem. Estes aqui são os falsos, os que estão nos arquivos da empresa. De acordo com estes aqui, elas ganham 10% a mais do que o verdadeiro salário.
            - Não pode ser verdade. Há algum engano. – Afirma Marcelo.
            - Há? – Liga para Bianca. – Eu preciso que a senhora venha aqui, por favor.
            Bianca adentra à sala.
            - Senhor?
            - Entre. Venha até aqui. – Ela vai até Antony. – Veja estes contracheques. – Entrega-os a Bianca. – Qual dos dois corresponde ao seu verdadeiro salário?
            - Este aqui. – Põe o contracheque verdadeiro na mão direita. – Este outro é maravilhoso, mas não corresponde ao meu salário real. Bem que eu queria receber este valor aqui.
            - Obrigado. – Recebe os contracheques. – Pode ir agora.
            - Sim, senhor. – Sai da sala.
            - Agora, o que vocês dizem?
            O silêncio toma conta da sala. Os dois funcionários do RH não dizem nada.
            Na recepção, Bianca fica tentando entender o que está acontecendo. Até que os dois homens saem da sala da presidência. Vitório não diz nada, nem um tchau para Bianca. Marcelo olha para ela, fica parado por alguns minutos e sem expressar uma palavra, frase, oração ou período sequer, retira-se em total silêncio do local.

QUANDO BIANCA CHEGA EM CASA, encontra Leone sentado no sofá na companhia da mãe da garota. Ela entra e cumprimenta os dois. Dona Rita de Kássia levanta-se e vai em direção ao seu quarto, deixando a filha e o namorado sozinhos na sala.
             - Como foi o seu dia, Bianca? – Procura saber Gusta.
            - Foi como os outros dias. – Senta-se no sofá de dois lugares. – O que houve de diferente foi que Marcelo e o irmão foram chamados à sala da presidência hoje à tarde. Eles saíram de lá e não falaram nada. – Pega o celular e toca na tela. Enquanto fica olhando para alguma coisa na tela do aparelho, Gustavo dá início a conversa sobre a relação dos dois.
            - Como falei para você hoje cedo ao telefone, precisamos conversar sobre a nossa relação. Não dá para ficarmos fingindo que nada aconteceu entre nós dois. Você sabe que o seu ciúme é um problema para o nosso namoro. Você precisa confiar mais em mim. Como já havia lhe dito, não rolou nada entre mim e Yasmim, nada além do que eu te contei.
            - Pode ser que não. – Continua manipulando o celular e olhando para ele.
            - Você me acusar de interesse por ela, só porque a menina é filha dos nossos patrões. É um absurdo!
            - Será que é? – Olha para ele. – Só quero que você me explique por que ligou para ela. – Segura o aparelho com força.
            - Simples! Eu estava preocupado. Querendo ou não, eu tive responsabilidades pelo estado de saúde dela. Por mais que ela tenha sido imprudente.
            - O mesmo papo de sempre. – Levanta-se e caminha até o limite da sala com a cozinha. – Você precisa ser sempre assim: Cheio de cordialidade com todos. Cheio de carinho com todo mundo? Você é muito “bonzinho”. – Ironiza, fazendo o gesto de aspas com os dedos.
            - Sua ironia é o cúmulo da convivência pacífica. – Abaixa a cabeça.
            - Gusta? – Aproxima-se e senta-se ao seu lado. – Vou dar um voto de confiança a você.
            - Voto de confiança?
            - O que você quer mais? Estou baixando a guarda.
            - Você promete mudar? Você pede desculpas?
            - Pode ser. Entenda como você queira entender. – Beija a sua face direita.
            Enquanto isso, Gley aparece na saída do corredor que dar acesso aos quartos. Ele fica observando a troca de carinho entre Bianca e Marcelo. Até que sussurra antes de adentrar.
            - Maldito! Você não a merece.
            Tudo parecia bem entre Bianca e Gustavo, mas tudo muda quando o telefone celular de Gusta toca. Ele o pega e visualiza o nome de Yasmim. De imediato, hesita atender, mas resolve atendê-la, apesar dos olhares de Bianca. Esta se afasta e levanta-se furiosa no exato momento que ouve o rapaz falar:
            - Oi, Yasmim! Tudo bem contigo?
            Os dois batem aquele papo, cheio de empolgação. O que deixa Bianca a cada segundo furiosa. Após alguns minutos, Leone se despede de Yasmim e volta o olhar para a namorada. Ela está em pé, olhando-o e de braços cruzados.
            - E aí, Gustavo Leone? O que você tem para mim dizer agora?
            - Poxa, Bianca! Você sabe que sou simpático com todo mundo. E foi uma conversa normal entre duas pessoas que se conhecem, que mantém uma relação de coleguismo profissional. Se eu tivesse algo para esconder, não teria a atendido em tua frente, não é verdade?
            - Faz-me um favor? Deixe-me só. Eu preciso pensar. – Altera a voz. – Preciso engolir isso que acabou de acontecer. – Caminha até a porta e a abre. – Boa noite, Gustavo Leone!
            O rapaz levanta-se e caminha até a porta, atravessa, para em seguida e volta-se para a moça.
            - Acho que é uma despedida mesmo. Não será mais um até logo!?
            - Se você quer assim, que, então, seja um adeus. – Fecha a porta.
            Ela bate na porta com a mão espalmada. Chora e grita de raiva. Dona Rita de Kássia aparece na sala e em silêncio, apenas observa a filha em mais um momento de ataque de fúria.

MARCELO CHEGA EM CASA SILENCIOSO. Vai até o quarto e começa a tirar a roupa. Fátima, que o acompanhou, começa a interrogá-lo sobre o que o senhor Antony queria com ele. O ex-funcionário da Flammy fica em silêncio por mais um instante. Coloca a camisa sobre o colchão de casal, tira os sapatos e as meias, em seguida a calça preta e a coloca próxima à camisa branca. Apenas de cueca levanta-se e pega a toalha no guarda-roupa. No trajeto para o banheiro, para e volta-se para Fátima.
            - Fui despedido. Despedido por justa causa. Por roubo.
            - Oi? – Espanta-se com a notícia. – Acho que não entendi, amor.
            - A culpa é daquela vaca. Ela vai me pagar. Vou acabar com a vida daquela vaca vadia, patricinha de uma figa. – Com o punho cerrado, esmurra a parede por duas vezes.
            - Calma, amor! – Abraça-o. – Vá tomar banho para relaxar.
            - Ela destruiu a minha vida, agora vou dar o troco. E a minha vingança será muito mais cruel do que uma demissão por justa causa. Quem estiver vivo, verá.
            - Não fala isso, amor. – Grita. – Pense positivo que tudo vai dar certo. – Esmurra o peitoral do namorado, enquanto diz: – Você é competente. Você pode conseguir um emprego melhor do que esse... – Deixa as lágrimas rolarem em seu rosto.

            Marcelo abraça a amada e a consola, mas, em seu olhar, dá para ver o tamanho do ódio que ele está sentido por Yasmim Flammy Queiroz. 
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