Espaço Literário 4



Redes de adeus

                                                                                                Evandro Calafange de Andrade

            O jovem Ronan Ferreira tira uma selfie com aquele sorriso irradiante de sempre e posta no Facebook com a seguinte legenda: Hoje partirei e vocês não virão mais a luz dos olhos meus. O post teve inacreditáveis 300 mil views. Nunca antes uma postagem dele havia sido visualizada por tantas pessoas. Bateu uma marca de 500 curtidas, mais de 1.000 pessoas comentaram a foto e os mais íntimos estranharam o texto.
            Jully Silveira, a amiga mais próxima de Ronan, que era quase irmã, entrou em contato com o amigo pelo Messenger. Ela estava preocupada com Ferreira. E as respostas para as perguntas de Silveira eram mais estranhas ainda. Parecia que ele estava se despedindo, e o medo da garota era de que o amigo estivesse preste a fazer algo muito grave.
            Os amigos verdadeiros ficaram em estado de comoção. Eles sentiam que o jovem estava se despedido e que talvez cometesse um suicido. Jully ficava cada instante mais nervosa com a situação e tentava ligar para todos os membros da família de Ronan, como pai, mãe, irmãos, primos, avó, avô, tios, tias; mas ninguém a atendeu.
            Em outra rede social do “suicida”, era postada outra foto e com uma legenda mais intrigante ainda. “Fui quem quis ser. E serei sempre a lembrança de uma manhã de verão”. Amanda Lopez não aguentou, chorou compulsivamente e comentou a foto no Instagram do amigo: Seja qual for a sua decisão, saiba que eu te amo e sempre te amarei. E lembrarei de ti em todas as manhãs de verão, outono, inverno, primavera, até os últimos dias de minha vida, amigo querido.
            Jully inconformada em não poder entrar em contato com ninguém da família Ferreira. Passou a monitorar os perfis do amigo na internet. E cada vez que os abria, deparava-se com as mensagens e fotos de adeus. A jovem chorava que soluçava e se sentia inútil em frente de tamanha situação. Era como se estivesse algemada, mas toma uma decisão. Pega o carro e sai dirigindo loucamente até a casa do amigo, quem sabe ela poderia salvá-lo.
            Facebook, Instagram, Google Plus, Blogger, Messenger, Snap Chat e, por fim, o som de notificação do WhatsApp. Era Ronan entrando em contado com Jully.
            - Jully, você está vindo para cá?
            - Sim. Como você sabe? Apavora-se com a pergunta.
            - Sinto sua presença, sua angustia. Não fique nervosa. Tenha tranquilidade, amiga.
            Jully para o carro e chora segurando forte a direção do veículo.
           - Ronan, espere por mim. Estou chegando. Não faça nada antes de olhar dentro dos meus olhos. Digita.
            - É tudo que eu mais quero, amiga. Quero olhar nos teus olhos outra vez, mas...
            - “Mas” o quê? Grita em sua mensagem de voz.
            - Mas... Mas... Mas... Mas... Mas...Digita.
            A garota não sabia mais o que fazer e ficava mais nervosa com aquela conjunção adversativa repetida tantas vezes e seguida de reticências.
            - Querido, fale comigo. Manda uma mensagem de voz. Quero ouvir a tua doce voz.
            Em seguida o som da notificação soa dentro do carro. Silveira pega o celular e visualiza que há uma nova mensagem. Toca na tela do aparelho para ativá-la.
            - A primeira vez que te vi, senti algo tão especial. Até confundi com amor, mas com o passar dos dias, percebi que o sentimento que nasceu entre a gente era uma forte e eterna amizade. Eu sabia que você não iria ficar longe de mim nessa hora tão... diz em sua mensagem de voz.
            Jully pisa fundo no acelerador e tenta conter o tremor do seu corpo.
            Minutos depois, ela chega em frente ao prédio do amigo. Sai do carro as presas e vai correndo para dentro do edifício. O porteiro tenta falar com ela, mas a menina não o ouve. Entra no elevador e toca por diversas vezes o botão 13. Caminha de um lado para o outro e fica de cócoras chorando. O porteiro observa toda a movimentação dentro do elevador pela tela do monitor...
            Ela chega no andar onde mora Ronan. Aproxima-se da porta e ao tocar a campainha, alguém abre... Ela se assusta e se decepciona ao ver o tio do amigo, Fernando.
            - Oi, Jully!
            - Oi! Cadê Ronan?
            - Ronan? Pergunta com a voz embargada.
            - Sim. Quero falar com ele. Entra.
            - Acho que não será possível. Diz voltando a visão para o chão.
            - Como assim? Sai correndo pelo apartamento, gritando o nome do amigo.
            Chega ao quarto de Ronan, olha em todos os cantos, vai até o banheiro e nada de encontrá-lo. Olha para a porta e ver o Fernando em pé olhando-a com lágrimas nos olhos.
            - O que houve, Fernando? Por favor, fale alguma coisa. Fala agressivamente com a voz trêmula.
            O homem começa a falar. Diz que Ronan sofreu um acidente de carro ontem ao meio-dia quando vinha da casa dela. Jully fica mais nervosa, senta-se na cama. Questiona a narrativa de Fernando. Faz arguição sem parar. Até que Fernando senta-se na cama ao lado dela e continua a relatar o fato.
            - Ele foi levado ao hospital e ficou em coma induzido até essa manhã. Mas agora às 10h30...
            - 10h30? Sim! Ele postou uma foto no Facebook. Olha esperançosa para o homem.
            - Como? Fernando fica incrédulo com o que ouve. Não é possível. Retruca.
            - Veja! Jully mostra post por post em todas as redes sociais do amigo.
            - Às 10h30, ele morreu. Os médicos anunciaram a morte de Ronan Ferreira exatamente às 10h30. Eu estava lá na hora.
            - Impossível. Grita, levanta-se e caminha até a janela. Olha para a cidade. Ele estava falando comigo pelo WhatsApp. Ele até me mandou uma mensagem de voz às 12h30. Ouça!
            Ela ativa a mensagem e Fernando ouve-a sem acreditar no que está ouvindo, assim como, em tudo que acabara de saber.
            - Meu Deus! Como assim? Eu estou aqui para pegar as roupas que vamos vesti-lo para o funeral. E quando eu abri a porta, tinha acabado de falar ao telefone com a mãe dele. Ela estava preocupada, porque o celular do filho foi destruído e a gente não tinha os contatos dos amigos dele para avisar do sepultamento. E às 12h30, foi exatamente o horário do acidente dele ontem. Inacreditável!
            - Ele mesmo nos avisou. Não sei como, mas ele nos avisou pelas redes sociais.
            - Acho que sim. É inacreditável, mas é o que aconteceu.
            - Vou postar uma mensagem no mural do perfil dele no Facebook. Avisando a todos do falecimento e do local do velório. Fala bem devagar, quase sem forças para verbalizar uma palavra sequer.
            Os dois se abraçam e saem em direção ao hospital... Jully muito abalada tenta não ver o amigo dentro do caixão durante o velório. Mas deixa-se levar pelas energias e caminha até o amigo. Acaricia o rosto dele e chora, enquanto as lembranças da amizade dos dois tomam conta de seu ser.
            Após o enterro, ela está indo para casa, quando ouve o som da notificação do WhatsApp. Pega o celular, abre o aplicativo e ver uma mensagem. É de Ronan.
            “Adeus! Sabia que podia contar contigo”. E encerra com um emoticon feliz. Em seguida, um sorriso abre-se no rosto de Jully e uma lágrima corre em seu rosto; logo, a gota triste cai lentamente até o visor do aparelho celular.
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

RESENHA CRÍTICA DO DOCUMENTÁRIO - MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO

Ator Global de "Além do Horizonte" se assumiu mesmo?

A nova safra de cantores sertanejos